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O manifesto

Porque lancei a Captain.Food

O Capitão Food, com uma mão no coração e o olhar posto ao longe

Vou ser direto contigo, porque tu não tens tempo e eu também não.

A Captain.Food ainda não existe verdadeiramente. Não há dezenas de restaurantes a bordo, nem milhares de clientes, nem uma bela curva para te mostrar. Há uma convicção, um enquadramento jurídico, um site, e eu a escrever-te. Prefiro dizer-to já: acredito que estás farto de que te contem histórias. Por isso, aqui vai a verdadeira.

O que me revoltou

O meu combate é simples: quero construir plataformas de utilidade pública, para fazer frente aos gigantes tecnológicos que abusam da sua posição.

Passei anos a construir plataformas e marketplaces. Sei como são feitas — e sei onde apertam. A uberização dos estafetas pareceu-me o bom ponto de partida: gente que se mata a trabalhar, mal paga, sem proteção.

Depois descobri os números, do lado dos restauradores. Comissões de 25 a 35% em cada encomenda — chocou-me. E o que me chocou ainda mais foi a perda de controlo: o restaurador já nem conhece os seus próprios clientes.

A conta é simples. Nas grandes plataformas, um prato de 30 € não te rende 30 €. Rende-te à volta de 21. Os 9 € em falta vão-se em comissão, num ofício em que a margem já se joga em poucos pontos. Tu cozinhas. Elas embolsam.

De tanto olhar, só vi uma coisa: um sistema em que os clientes, os restauradores e os estafetas sobrevivem e se queixam — todos, menos as grandes plataformas. Então decidi usar o que sei fazer, construir software de qualidade e depressa, para resolver um problema de sociedade antes de procurar o lucro.

O verdadeiro problema não é o preço. É a dependência.

Julga-se que o problema das plataformas é a comissão. É só uma parte. O verdadeiro problema é que os teus clientes não são teus clientes. A plataforma sabe o nome deles, a morada deles, os hábitos deles. Tu, não. No dia em que saíres, partes do zero.

E quando passas a depender delas, podem apertar. A comissão sobe? Ficas a saber. A tua posição desce? Não sabes porquê. As regras mudam? Obedeces. Já não és o capitão do teu negócio. És passageiro.

O que me recuso a fazer

A tentação, quando se lança uma alternativa, é fazer o mesmo mas mais simpático ao início — e depois espremer, quando toda a gente já está agarrada. Todos já vimos esse filme. O serviço simpático torna-se a nova portagem.

Recuso isso. Não por bondade: por construção. A Captain.Food visa a acreditação de empresa solidária de utilidade social (ESUS). Não é um slogan: é um enquadramento jurídico que limitaria a nossa lucratividade e fixaria a nossa razão de ser. E o nosso rumo é tornarmo-nos uma cooperativa (SCIC) — onde os restauradores, os estafetas e os cidadãos terão voz. No dia em que quiséssemos derivar para aquilo que combatemos, o estatuto impedir-nos-ia. É a única salvaguarda que vale: não uma promessa moral, uma regra.

E para que não seja só mais uma palavra, abrimos as nossas contas em público no Open Collective: cada euro recebido, cada euro gasto, destinado a ser visível por todos. A regra obriga-nos; as contas provam-to.

E quero ir ainda mais longe: que a Captain.Food seja um bem comum, não propriedade minha. O código já é aberto (no GitHub), sob a licença Captain.Food Coopyleft (copyleft baseado na AGPL, no espírito da CoopCycle), cujo uso comercial está reservado às estruturas da economia social e solidária. E o meu rumo é fazê-lo reconhecer como bem público digital (digital public good) — para que seja verificável, e para que outra cidade, outro grupo de independentes, o possa retomar e adaptar. É assim que se faz frente aos gigantes: não nos tornando um pequeno gigante por nossa vez, mas fazendo da ferramenta um comum que ninguém pode confiscar.

O que te propomos, às claras

0% de comissão sobre os teus pratos. Sempre. Ficas com 100% do preço do que vendes. Os teus preços, os mesmos da sala — sem menus a dobrar. A tua clientela, tua, desde a primeira encomenda direta. O teu canal, com o teu nome.

E, sobretudo, tens finalmente uma verdadeira casa online. Não uma ficha afogada no diretório de um gigante, um restaurante entre milhares: o teu próprio site, com o teu nomeoteuresto.captain.food, ou até o teu próprio domínio oteuresto.fr, se quiseres. As tuas cores, as tuas fotos, o teu universo. Um site que te referencia, que os teus clientes fixam, e que te pertence. É isso sair da dependência: deixar de alugar um lugar na montra de outro e passar a ter a tua.

«Então vivem de quê?» Boa pergunta, e a resposta está aqui, às claras: nunca à tua custa. O serviço é financiado por uma contribuição livre do cliente — 0 € possível, sem julgamentos — nunca uma percentagem, nunca sobre a tua margem, nunca uma sobretaxa cobrada ao cliente.

E os estafetas: onde a uberização os espreme e precariza, nós escolhemos pagar-lhes melhor do que ninguém, aqui em Tours — com a ambição de, a prazo, os contratar como assalariados. Um serviço justo começa por pessoas bem tratadas, e financiamo-lo sem espremer ninguém (ver como pagamos a entrega).

Onde estamos, honestamente

Estamos a começar. Em Tours, com um primeiro grupo de restauradores. Não em todo o lado, não já: um território, bem feito, entre independentes que se conhecem. Construímos a ferramenta com os primeiros que embarcam — as suas opiniões moldam-na. Juntares-te agora não é correr um risco: é grátis, sem exclusividade, sem compromisso. É teres peso naquilo em que a Captain.Food se vai tornar.

Retomemos as comandas!

Captain.Food

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